sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


(Poema: A nudez da palavra que te despe, de António Ramos Rosa)
(Quadro: No scape, by Renso Castaneda)

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

(Poema: Quem me quiser, de Rosa Lobato de Faria)
(Quadro: Shadows by Eduardo Rivero)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010


Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar ardente do joelho
E o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
Mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente
Ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.

(Poema: Primeiro, de Rosa Lobato de Faria)
(Quadro: Nebluma by Eduardo Rivero)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010



Ter saudade 
é vaga disforme de um corpo. 
Ter saudade 
é pássaro que aparece e se apaga 
erguido de confusão 
na angústia, teste dado à natureza 
bruxuleante dentro de mim. 
Ter saudade 
é fingir qualquer coisa que inquieta, 
levantada, desenterrada do crivo da memória. 
Por vezes quando o tempo por ela passa 
não passa o tempo da saudade, 
estátua rígida dum destino anoitecido, 
passa um nada meio acontecido. 
Saudade, 
é filha da alma do mundo 
que de tanto ser outro 
sou eu já. 
Saudade, 
porque viajas cansada 
em horas dentro de mim? 
Saudade 
que vieste até à última força desta linha, 
brumosa da eterna caminhada. 
Sempre que vieres 
sem avisares 
leva-me contigo 
para que a paz volte 
à memória de meu corpo 
como o rio que passa 
no tempo final da minha natureza. 

(Poema: Saudade, de Carlos Melo Santos, in "Lavra de Amor")
(Quadro: Feeling blue by Eduardo Rivero)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010


"Decorre às vezes um século e mais sem que surja um "herói" ou um "génio", mas não há dia em que não nasça um imbecil. Trata-se do maior grupo da humanidade. E como o destino se decide agora no respeito do sufrágio universal e da vontade da maioria — estão como muito bem querem, os imbecis. De nada vale desatar em imprecações contra céus e terra. Para triunfar na vida e no mundo, o homem avisado faz-se fraco de espírito, parvo, dissimulado, cobarde. É a melhor estratégia. Enquanto os grandes talentos têm por vezes de lutar contra si próprios e contra todos os medíocres que detestam qualquer forma de superioridade — o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares: na escola, acha-se confortável; nos media, está em franca maioria; na política, então, alcança a unanimidade. Quando Cristo prometeu o Reino dos Céus aos «pobres de espírito» estava já a cogitar o mundo moderno, imensamente feliz e democrático."

(Texto: de Autor desconhecido)
(Quadro: Néscio, de Domingos Silva)

sábado, 13 de fevereiro de 2010


Desperta-me 
de noite 
o teu desejo 
na vaga dos teus dedos 
com que vergas 
o sono em que me deito 

é rede a tua língua 
em sua teia 
é vicio as palavras 
com que falas 

a trégua 
a entrega 
o disfarce 

e lembras os meus ombros 
docemente 
na dobra do lençol que desfazes 

desperta-me de noite 
com o teu corpo 
tiras-me do sono 
onde resvalo 

e eu pouco a pouco 
vou repelindo a noite 
e tu dentro de mim 
vai descobrindo vales. 

(POema: Desperta, de Maria Teresa Horta)
(Quadro: I like to watch, by Mark Kostabi)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


"Quando o silêncio fala pelo amor, tem muito a dizer."
(Citação: de Richard Garnett)
(Quadro: Wonders of a woman, de Steve Hanks)
Agradecimento público ao Pedro Santos, por estas palavras...


Nao sei se os teus olhos são uma janela ..



Mas pelo teu verde olhar
É possivel desvendar
Sensibilidade de Arte
Gosto de ser Mulher



A beleza de uma só retina,
Que aqui dás a conhecer,
Se fossem as duas, imagina
O que poderia EU ver 

Dois amantes, o mundo 
cada um no seu reino, beijam-se nas praias 
quando as ondas batem as areias 

o mar é o meu navio, 
hoje naufrago feliz 

sabes quem sou, as dunas 
que se levantam com o vento são 
os sonhos do amor que dormita 
em sossego nas praias 

a terra és tu o mar sou eu 

(Poema: Dois Amantes, o Mundo, de Jorge Reis-Sá, in "A Palavra no Cimo das Águas")
(Quadro: Lovers in the Moonlight, de Marc Chagall)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária. 

Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma. 

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas. 

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens. 

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda. 

(Poema: Eu não voltarei, de Juan Ramón Jimenez)
(Fotografia: Torsos, de Flor Garduño)

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas 

Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração 

(Poema: Não posso adiar o amor, deA. Ramos Rosa, in A Mão de Água e a Mão de Fogo)
(Quadro: La paresse, de Felix Vallotton)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Quem és tu que assim vens pela noite adiante,

Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas. 

(Poema: Quem és tu, de Sophia de Mello Breyner Andresen)
(Quadro: Naked woman before stove, de Felix Vallotton)
É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro. 

(Poema: O teu rosto, de Sophia de Mello Breyner Andresen)
(Fotografia: Vestido elegante, de Flor Garduño)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos. 

(Poema: E de novo a armadilha dos abraços, de Rosa Lobato de Faria)
(Quadro: Amantes, de Domingos Silva)

E

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"A ausência diminui as pequenas paixões e aumenta as grandes, tal como o vento apaga as velas e aviva as fogueiras."

(Citação: de La Rochefoucauld)
(Quadro: Atom bomshell, de Mark Kostabi)