A nudez da palavra que te despe. Que treme, esquiva. Com os olhos dela te quero ver, que te não vejo. Boca na boca, através de que boca posso eu abrir-te e ver-te? É meu receio que escreve e não o gosto do sol de ver-te? Todo o espaço dou ao espelho vivo e do vazio te escuto. Silêncio de vertigem, pausa, côncavo de onde nasces, morres, brilhas, branca? És palavra ou és corpo unido em nada? É de mim que nasces ou do mundo solta? Amorosa confusão, te perco e te acho, à beira de nasceres tua boca toco e o beijo é já perder-te.
(Poema: A nudez da palavra que te despe, de António Ramos Rosa)(Quadro: No scape, by Renso Castaneda)
Quem me quiser há-de saber as conchas a cantiga dos búzios e do mar. Quem me quiser há-de saber as ondas e a verde tentação de naufragar.
Quem me quiser há-de saber as fontes, a laranjeira em flor, a cor do feno, a saudade lilás que há nos poentes, o cheiro de maçãs que há no inverno.
Quem me quiser há-de saber a chuva que põe colares de pérolas nos ombros há-de saber os beijos e as uvas há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos que passam nos abismos infinitos a nudez clamorosa dos meus dedos o salmo penitente dos meus gritos.
Quem me quiser há-de saber a espuma em que sou turbilhão, subitamente - Ou então não saber coisa nenhuma e embalar-me ao peito, simplesmente.
(Poema: Quem me quiser, de Rosa Lobato de Faria) (Quadro: Shadows by Eduardo Rivero)
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Primeiro a tua mão sobre o meu seio. Depois o pé – o meu – sobre o teu pé. Logo o roçar ardente do joelho E o ventre mais à frente na maré.
É a onda do ombro que se instala. É a linha do dorso que se inscreve. A mão agora impõe, já não embala Mas o beijo é carícia, de tão leve.
O corpo roda: quer mais pele, mais quente. A boca exige: quer mais sal, mais morno. Já não há gesto que se não invente Ímpeto que não ache um abandono.
Então já a maré subiu de vez. É todo o mar que inunda a nossa cama. Afogados de amor e de nudez Somos a maré alta de quem ama.
Por fim o sono calmo, que não é Senão ternura, intimidade, enleio: O meu pé descansando no teu pé, A tua mão dormindo no meu seio.
(Poema: Primeiro, de Rosa Lobato de Faria) (Quadro: Nebluma by Eduardo Rivero)
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Ter saudade é vaga disforme de um corpo. Ter saudade é pássaro que aparece e se apaga erguido de confusão na angústia, teste dado à natureza bruxuleante dentro de mim. Ter saudade é fingir qualquer coisa que inquieta, levantada, desenterrada do crivo da memória. Por vezes quando o tempo por ela passa não passa o tempo da saudade, estátua rígida dum destino anoitecido, passa um nada meio acontecido. Saudade, é filha da alma do mundo que de tanto ser outro sou eu já. Saudade, porque viajas cansada em horas dentro de mim? Saudade que vieste até à última força desta linha, brumosa da eterna caminhada. Sempre que vieres sem avisares leva-me contigo para que a paz volte à memória de meu corpo como o rio que passa no tempo final da minha natureza.
(Poema: Saudade, de Carlos Melo Santos, in "Lavra de Amor") (Quadro: Feeling blue by Eduardo Rivero)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
"Decorre às vezes um século e mais sem que surja um "herói" ou um "génio", mas não há dia em que não nasça um imbecil. Trata-se do maior grupo da humanidade. E como o destino se decide agora no respeito do sufrágio universal e da vontade da maioria — estão como muito bem querem, os imbecis. De nada vale desatar em imprecações contra céus e terra. Para triunfar na vida e no mundo, o homem avisado faz-se fraco de espírito, parvo, dissimulado, cobarde. É a melhor estratégia. Enquanto os grandes talentos têm por vezes de lutar contra si próprios e contra todos os medíocres que detestam qualquer forma de superioridade — o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares: na escola, acha-se confortável; nos media, está em franca maioria; na política, então, alcança a unanimidade. Quando Cristo prometeu o Reino dos Céus aos «pobres de espírito» estava já a cogitar o mundo moderno, imensamente feliz e democrático."
(Texto: de Autor desconhecido) (Quadro: Néscio, de Domingos Silva)
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Desperta-me de noite o teu desejo na vaga dos teus dedos com que vergas o sono em que me deito
é rede a tua língua em sua teia é vicio as palavras com que falas
a trégua a entrega o disfarce
e lembras os meus ombros docemente na dobra do lençol que desfazes
desperta-me de noite com o teu corpo tiras-me do sono onde resvalo
e eu pouco a pouco vou repelindo a noite e tu dentro de mim vai descobrindo vales.
(POema: Desperta, de Maria Teresa Horta) (Quadro: I like to watch, by Mark Kostabi)
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
"Quando o silêncio fala pelo amor, tem muito a dizer."
(Citação: de Richard Garnett) (Quadro: Wonders of a woman, de Steve Hanks)