domingo, 31 de janeiro de 2010

Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.

(Poema: Andava a lua nos céus, de António Botto)
(Quadro: Delirious, de Mark Kostabi)
Em jardins nocturnos
odoríferos
tecemos um casulo
de paredes translúcidas
e corpos indivisos
crisálida voando entre
mil sóis

A infância, de ausências,
enfim cristalizada
ciprestes como falos
laranjas vermelhas de romã
quarto dos fundos
o mundo em contraluz
em silhuetas

Isolei o teu corpo, a tua alma
demoro-me em cada pormenor
mas sou estrangeiro
e dói-me ter perdido
o tempo das raízes

(Poema: Tardiamente, de José Carlos Teixeira in O Voo Interdito para o Sol)
(Quadro: Perishable prose, de Mark Kostabi)
O tempo ou a distância
nos mantiveram assim, desconhecidos
os rostos encostados à paisagem
as nossas lágrimas nestes vidros
de inverno
violentados, sós
mas sem a hipocrisia dos natais

A adolescência ainda me dói
como o vermelho dos órgãos
submersa, corno numa cave
sons e imagens desfocadas

Em que país te sinto estremecer
tocar música como o teu olhar
magoado?
Olha é tudo transitório
o amor, o clima, os filhos
as marés
até os hábitos
Cada momento é uma
semente que germina
mesmo que seja do desencanto

(Poema: o tempo ou a distância, de José Carlos Teixeira in O Voo Interdito
para o Sol)
(Quadro: Finita la Commedia, de Sergei Chepik)
"Sofremos demasiado pelo pouco que nos falta e alegramo-nos pouco pelo muito que temos..."

(Citação: de William Shakespeare)
(Quadro: A família, de Tarsila do Amaral)

sábado, 30 de janeiro de 2010

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão

de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despe
vai perdendo o nosso número de telefone.


(Poema: Não é tarde, de José Miguel Silva)
(Quadro: Centered, de Steve Hanks)
Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

(Poema: A meias, de João Luís Barreto Guimarães)
(Quadro: Emotinal appeal, de Steve Hanks)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

(Poema: Shelley sem anjos e sem pureza, de Eugénio de Andrade in As Mãos e os Frutos)
(Quadro: Abaporu, de Tarsila do Amaral
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

(Poema: Que música escutas tão atentamente, de Eugénio de Andrade in Coração do dia)
(Quadro: Untitled, de Teresa Carneiro)
A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.

a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.

dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação

Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.

(Poema: A Divisibilidade: a Invisibilidade a Dois, de Luiza Neto Jorge in O seu a seu tempo)
(Escultura: In wonder of destiny, de Francisco Simões)
"A música compõe os ânimos...
descompõe e alivia os trabalhos que nascem do espírito…"

(Citação: de Miguel de Cervantes Saavedra)
(Quadro: El gato y la guitarra, de Guillermo Martí Ceballos)
O Amor

é uma coisa que desliza
por cima das lagoas
que corre pelos campos sem sentido
que empurra o vento
e apruma o sol no solstício
que derruba a bruma e fecha o horizonte
que nos faz ver de noite e de dia cegos
tacteando o ar sem provimento
que dá o movimento aos astros
e às sombras infinitas
que abre o mar por onde os escravos passam
e ficam livres sem saber
é a cascata que nos dilui
e lança na corrente sem perfídia
até ao oceano dos sentidos
é o iceberg que se funde
e derrota os titanics
que passam solitários pelas albas
é o assombro da manhã
o cantar dos ralos nas searas
o despertar das aves e rebanhos
o charco onde crescem
amarelo e roxo
as flores da primavera

é só eu e tu
como nas novelas.

(Poema: O amor, de Henrique Ruivo)
(Quadro: Nu, de Alfredo Coelho)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se.

(Poema: Por um rosto chego ao teu rosto, de Helder Moura Pereira)
(Escultura: Autumnal island, de Francisco Simões)
"O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."

(Citação: de Mário Quintana)
(Quadro: Desire to love, de Gordon King)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


Magníficos.
como os jactos que aguardam no aeroporto o iminente sinal da partida,
seus grandes olhos imensos escorvam, impacientes,
o subsolo da imagem pressentida.
Perfurantes como as brocas dos mineiros,
pontas de aço-vanádio
que o cubro alcançam sem perder o gume,
um fogo o olhar o queima, um mar invade-o,
um lume feito de água, água de lume.
Súbito, seus grandes olhos imensos descolam e levantam voa.
Ei-los que sobem.
Seu movimento é como se apenas as coisas deles se afastassem,
é como se move o tempo, sem agravo nem estrago,
como boiam as folhas na dormência do lago,
como bate o coração do homem enterrado no chão.
Na estática subida a que se entregam
são o próprio silêncio em que navegam,
são a curva do espaço, a quarta dimensão.
Cá em baixo,
onde as superfícies se avaliam
multiplicando pi por érre dois,
um formigueiro de bois
desenha na planície coloridos talhões.
Cumprem-se as sementeiras.
As cores são as bandeiras;
os regos, os limites das nações.
Um rabiar de células,
Cultura de bactérias num capacete de aço,
ziguezagueiam, obstinadas como libélulas,
num charco de sargaço.
Entretanto,
seus grandes olhos imensos olham, e olhando,
no desígnio frontal que não hesita nem disfarça,
com linhas de olhos vão bordando a talagarça.
Sento-me à secretária,
preparo-a, limpo-a, esfrego-a
na aflita busca do mais puro espaço,
e com o esquadro e a régua,
o lápis e o compasso,
construo os olhos d'Ela.
Deliberada e escrupulosamente
ergue-se a construção de arquitectura mansa,
quase cinicamente,
como quem premedita uma vingança.
(Aliás,
o engano, a ilusão, a mentira, a falsidade, o perjúrio, a invenção, tudo, em Amor, é verdade.)
Eis os mais lindos olhos deste mundo.
O Amor os fez.
Proas de galeões de velas pandas,
meninas a correr que chegam às varandas
olhando o mundo pela primeira vez.
Dou-lhes uns toques nas íris, um tempero
na plácida inocência,
um miligrama de cianeto, morte sem desespero,
acicate da humana permanência.
Sobre o fundo sombrio um tom de folha seca
de plátano, uns veios
de clorofila,
mancha irisada
em redor da pupila,
óleo vertido no asfalto da estrada.
Encosto o rosto às mãos, e embevecido
contemplo a construção de linhas,
e finjo-me esquecido
como se não soubesse que são minhas.
Como se não soubesse
comovo-me e entrego-me no sorriso total,
Construo o meu real
conforme me apetece.

(Poema: Memória sobre os teus olhos, de António Gedeão in Obra Poética)


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

(Poema; Estranho é o sono que não te devolve, de Daniel Faria in Explicação das Árvores e de Outros Animais, 1998)
(Quadro: Nu em azul, de Ismael Nery)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Um poema dedicado a ti, com um beijo nosso...


Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

(Poema: Vivo na esperança de um gesto, de Reinaldo Ferreira)
(Quadro: Caryatid 2, de Amadeo Modigliani)
Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

(Poema: Nesta última tarde em que respiro, de António Franco Alexandre)
(Foto: Eu)

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

(Poema: Aconteceu-me, de Almada Negreiros)
(Quadro: Sem título, de Teresa Carneiro)


sábado, 23 de janeiro de 2010


Quando os cinco elementos se misturam,
No roçar da pele, no sussurrar do laço...
Na visão de lince, que os seios procuram
Na extensão de líneas puras do abraço!

E o corpo se emoldura sem juízo!
Num tilintar de taças dormentes;
Que irradiam o instinto impreciso
Ao tocar o escuro das mentes...

Que choram sem pudores sementes,
Que se torturam em carícias!
Na maciez do orvalho, na insaciada primícia...

O amor que une carne e derme,
À penumbra, que o vento adere
E faz os corpos descansarem silentes!

(Poema: de Ledalge)
(Quadro: Desnudo en el sofa rojo, de Guillermo Martí Ceballos)


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

(Poema: O céu, de Luís Miguel Nava, in Como alguém disse)
(Escultura: de João Cutileiro)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

(Poema: O suporte da música, de Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos" )
(Quadro: Violino azul, de Domingos Silva)
“Pertenço a esta espécie de homens que não constroem nem destroem, mas que dão a razão de toda a construção e de toda destruição.”
Ismael Nery
Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na
luz do sol de Janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva
mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A
luz
do sol em Janeiro:
assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para
luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei)
tanto que o vento lhe desse oportunidade).
O nosso amor
é Janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que
está sempre lá.

(Poema: Sol de Janeiro, de João Luís Barreto Guimarães)
(Quadro: The Road Of The Enigma, de Salvador Dali)

Ela queixava-se da sua distracção.
Como se fosse verdade que ele
não a amava como ela dizia que
o amava. Ele pouco ou nada
sabia do amor, por isso que
resposta certa podia sair dos
seus lábios? É verdade que
andara perdido pelas cidades
e por vários países durante anos.
Um dia ferira-o uma dor terrível,
marcara-o a perda de um amor
duradoiro. Quando ela falou e ele
pôde enfim prestar atenção ao
que ela dizia, confundiu-se no
seu espírito a memória desse
amor destruido com a nostalgia
do amor que não tinham ainda
vivido, ele e ela. Mais do que isso
que podia saber? Calou-se. Um dia
talvez pudesse habituar-se de novo ao
sentido aprendido e rejeitado do mundo.

(Poema: A nostalgia, de João Camilo, in A Ambição Sublime)
(Quadro: Portrait of a woman I, de Khalid Al Thamazi)


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Movimento

movimento de alma
silêncio, emoção
de doçura meia,
essa tua palma
sobre a minha mão
o que tem que eu leia?

para lá da floresta
onde as coisas são
sem minha licença,
mais linear que esta
confusa razão
da tua presença
não há outro sim
que não tem dizer
e é mais movimento?

qualquer coisa assim
como um tempo sem fim
como um espaço sem tempo.

(Poema: Movimento, de Mário Cesariny, in Manual de Prestidigitação, 1981)
(Quadro: Space Eve, de Salvador Dali)
"Amar-se a si mesmo é o princípio de uma história de amor que durará toda a vida."

(Citação: de Oscar Wilde)
(Quadro: Portrait of a woman III, de Khalid Al Tahmazi)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Vens de noite no sonho
sem pés
entre páginas
de gasta paciência
quando a música findou
e teu sorriso se desfez
como um grão de pólen.

Vens no veneno oculto
de meus dias
no silêncio
dos meus ossos
devagar
arrastando em queda
o nosso mundo.

Vens no espectro
da angústia
na escrita
inquieta
destes versos
no luto maternal
que me devolve a ti.

A escuridão desce então
sobre o meu corpo
quando o rosto da morte
adormece na almofada.

(Poema: de Ana Marques Gastão, in Nocturnos, Lisboa, Gótica, 2002)
(Quadro: Lissabon, de Mário Eloy Ferreira)
É urgente o amor
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar alegria.
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.

(Poema: Urgentemente, de Eugénio de Andrade, in Até Amanhã, 1956)
(Quadro: Friends, de Gustave Klimt)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Vai tua vida,
Teu caminho é de paz e amor
Vai tua vida é uma linda canção de amor
Abre os teus braços
E canta a última esperança
A esperança divina de amar em paz

Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar,
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar,
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol,
Como a flor,
Como a luz
Amar sem mentir,
Nem sofrer

Existiria verdade,
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você

(Poema: Se todos fossem no mundo iguais a você, de Vinicius de Moraes/Tom Jobim)
(Quadro: 1, de Domingos Silva)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

«Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?»
(Citação: de Fernando Pessoa)
(Quadro: Castelo, de Domingos Silva)
"Na vida, chegamos despreparados a qualquer idade, e apesar dos anos não temos experiência."
(Citação: de Berthe Morisot)
(Quadro: Nu à la lecture, de Theodore Pallady)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010


"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla."

(Citação: de David Hume)
(Quadro: Nu reclinado, de Domingos Silva)


domingo, 10 de janeiro de 2010

(...)
Agora vem, prá perto vem
Vem depressa, vem sem fim
Dentro de mim
Que eu quero sentir
O teu corpo pesando
Sobre o meu
Vem meu amor, vem prá mim
Me abraça devagar
Me beija e me faz esquecer...

(Refrão da Música, Bem que se quis, de Marisa Monte)
(Quadro: Nu, de Domingos Silva)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.

(Poema: Poema sobre a recusa, de Maria Teresa Horta)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"As pessoas que amamos, não morrem. Apenas partem mais cedo."
(Autor desconhecido)
(Quadro: Silêncios imortais, de Ricardo Paula)
Ilha, de David Mourão Ferreira

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

(Quadro: Biblis, de Bouguereau)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

(Poema: Em todas as ruas te encontro, de Mário Cesariny)
(Quadro: Metamorfose de Narciso, de Salvador Dali)
Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

(Poema: Faz-me o favor..., de Mário Cesariny)
(Quadro: At the mirror, de Peter Pavlov)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

“Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho”.
(Citação: de Mário Quintana)
(Quadro: Untitled 5, de Wallace Ting)
"Viver de esperança torna as pessoas passivas. Para transformar a esperança em realidade é preciso usar forças, mobilizar-se."
(Citação: de Ignácio de Loyola Brandão)
(Quadro: Hope, George Frederic Watts)
É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor são os fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,
é para poucos!!